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Bacalhau na Páscoa: tradição ou bagunça?

2 de abril de 2026 às 17h00

Marcos Nogueira

São Paulo

A Páscoa, para os cristãos praticantes, marca o fim do jejum da Quaresma. Está liberado comer muito de qualquer coisa.

É por isso que, em quase todos os países cristãos, o almoço do domingo de Páscoa é uma festança de pratos de carne, alimento vetado na Sexta-Feira Santa.

Não no Brasil. Aqui, a gente continua com o bacalhau. Nada contra, mas é uma esculhambação da tradição. Vale lembrar que não fomos nós que começamos a avacalhar a Quaresma.

No início do cristianismo, as regras do jejum eram muito mais rígidas. Foram sendo relaxadas ao longo da história porque pouquíssima gente é abnegada a ponto de topar o sacrifício de passar fome por mais de um mês.

Acabou que a penitência se limita a comer peixe na Sexta-Feira da Paixão, renunciando à feijoada e ao boi no rolete.

Convenhamos que a tal penitência é um negócio risível, dado o jeito que o brasileiro conduz as celebrações. São toneladas de bacalhau e hectolitros de vinho. Lance pantagruélico, hedonismo numa data de pesar.

Então chega o domingo de Páscoa: já não faz sentido comer carne para sinalizar a mudança de estado de espírito, do luto para a euforia. Isso já aconteceu na sexta-feira.

Como não há punição prevista para quem come peixe na Páscoa, bora de receita de bacalhau para o domingão.

Tomem então um ovo de Páscoa de bacalhau! Melhor: bolovo de Páscoa, um ovo cozido coberto com massa de bolinho de bacalhau. É uma criação do Toninho Laffargue, do Bar do Momo, no Rio.

Bolovo de bacalhau do Momo

Rendimento: 15 bolovos

Dificuldade: média

Tempo de preparo: cerca de 2 horas

Ingredientes: 1 kg de batatas asterix descascadas em metades, 500 g de bacalhau dessalgado em pedaços, 1 colher (sopa) de azeite de oliva, pimenta-do-reino branca (opcional), 6 gemas, 4 colheres (sopa) de salsa picada, 15 ovos com casca, 100 ml de vinagre branco, óleo para fritar.

Preparo: Ferva 3 litros de água e cozinhe juntos a batata e o bacalhau, em fogo médio, por 20 minutos. Reserve o bacalhau e cozinhe a batata por mais 20 minutos.

Escorra a batata e a leve novamente ao fogo médio, mexendo sempre, por 1 minuto ou até secar bem, mas sem deixar grudar no fundo. Com um amassador manual, amasse a batata até formar um purê. Retire do fogo e reserve.

Descarte pele e espinhas do bacalhau e amasse-o com um amassador manual. Incorpore o purê de batata, o azeite e a pimenta-do-reino a gosto. Cubra com filme plástico e leve à geladeira por 1 hora, até esfriar bem.

Adicione as gemas e a salsa à massa e misture bem. Reserve.

Leve ao fogo uma panela grande com água e o vinagre até ferver. Adicione os ovos e deixe cozinhar por 5 minutos.

Transfira os ovos para uma tigela com água e gelo para interromper o cozimento e descasque. Envolva cada ovo em 80 g da massa de bacalhau e feche bem.

Frite, poucos por vez, em óleo quente abundante até dourarem e escorra sobre papel absorvente.

A receita do bolovo de bacalhau é um exemplo de como a culinária brasileira incorpora tradições de formas inesperadas. O consumo de peixes secos, como o bacalhau, tem uma longa história ligada à preservação de alimentos e às práticas religiosas católicas que chegaram com os colonizadores portugueses.

O hábito de preparar o bacalhau em datas comemorativas se mantém forte em várias regiões do país, com variações que vão desde o clássico bacalhau à brás até versões mais elaboradas como esta. O peixe utilizado com frequência no Brasil é o saithe, um peixe salgado e seco da família do bacalhau, pescado principalmente na Noruega.