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Leitura recomendada: “Corpo Desfeito” de Jarid Arraes

O romance de estreia de Jarid Arraes, intitulado Corpo Desfeito, apresenta de maneira intensa os abusos físicos e psicológicos que afetam as gerações de uma família no interior do Ceará. A história gira em torno de Amanda, uma jovem de doze anos que, após perder a mãe e o avô, vive sob o domínio de sua avó. A figura da avó transforma a casa em um ambiente opressivo, usando justificativas ligadas à religiosidade para justificar seu controle severo.

A narrativa ágil da autora cearense capta a brutalidade da vida de Amanda, que enfrenta não apenas a negligência, mas também a violência simbólica e a desumanização do corpo infantil. Esses abusos ilustram as dificuldades que muitas meninas pobres e nordestinas enfrentam, refletindo uma realidade que frequentemente permanece em silêncio no país. O patriarcado e os fanatismos religiosos agravam esses ciclos de sofrimento, perpetuando traumas entre as gerações.

No entanto, Corpo Desfeito também destaca a força e a resiliência feminina. Através da história de Amanda, o leitor testemunha uma busca por identidade e liberdade, especialmente quando a jovem descobre seu primeiro amor lésbico. Essa relação se torna uma luz em meio à opressão, mostrando que mesmo em situações adversas é possível encontrar esperança e libertação.

A avó de Amanda, ao impor suas próprias “purificações”, representa como a violência pode ser transmitida de geração para geração, afetando tanto os corpos quanto as mentes das pessoas envolvidas. A dinâmica familiar é marcada por traumas que moldam a vida da menina, o que ressalta a importância de discutir questões de proteção infantil e os limites da chamada “justiça familiar”, que muitas vezes está corrompida.

Além das situações de dor, o livro também destaca o poder do afeto e da solidariedade. Em meio à brutalidade, esses laços podem ajudar a romper barreiras, tanto internas quanto externas. Jarid Arraes provoca o leitor a refletir sobre a necessidade de quebrar esses ciclos viciosos, dando voz a personagens como Amanda, que buscam reconstruir seus corpos e suas vidas em busca de força coletiva e liberdade.