Edição online · BrasilNotícias todos os dias
O Sertão Notícias Notícias todos os dias Jornalismo
de referência
Notícias

Pressão na arroba até setembro, mas cenário segue favorável

Por O Sertão Notícias · · 4 min de leitura
Pressão na arroba até setembro, mas cenário segue favorável
Pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP), Thiago Bernardino de Carvalho (Foto: Grupo Aliança/Divulgação)

O principal desafio da pecuária brasileira no momento não é produzir mais carne, mas encontrar mercados para absorver parte da produção enquanto a China reduz o ritmo de compras dentro da atual cota de importação. Essa necessidade de redistribuir os embarques explica a volatilidade das últimas semanas e deve manter pressão sobre a arroba até meados de setembro. A avaliação é do pesquisador do Cepea/Esalq/USP, Thiago Bernardino de Carvalho.

A análise foi apresentada durante a divulgação dos resultados do Benchmarking da Estação de Monta 2025/2026, promovido pelo Grupo Aliança, em Campo Grande. Segundo o pesquisador, o setor atravessa um momento de transição, com fatores conjunturais pressionando os preços no curto prazo, mas sem alterar os fundamentos positivos da atividade. "O mercado está numa transição de incertezas, mas onde eu tenho uma oferta que está dando sustentação ao equilíbrio de mercado nesse momento", afirmou.

O principal fator de atenção é a China. O país continua sendo o maior comprador da carne bovina brasileira, mas reduziu o ritmo das aquisições por conta da atual cota de importação. Segundo Thiago, essa pressão tende a permanecer entre julho e meados de setembro. A partir daí, o mercado deve começar a reagir, mesmo antes da abertura da nova cota chinesa, prevista para janeiro de 2027.

A explicação está na logística da exportação. Para que a carne chegue aos portos chineses no início de janeiro, os frigoríficos precisam embarcar os contêineres em novembro. Antes disso, é necessário comprar os animais, realizar o abate e obter as certificações. Na prática, a demanda por animais terminados começa a aumentar entre setembro e outubro. "Esse gado tem que ser abatido e comprado em outubro. Então, a gente já começa a ter um movimento lá por setembro, outubro, visando essa nova cota China para 2027", explicou.

Essa expectativa já aparece no mercado futuro. Os contratos indicam arroba acima de R$ 360 no encerramento do ano, chegando a R$ 369 nos vencimentos de janeiro. Apesar das incertezas, a disponibilidade de animais prontos para abate continua limitada. Muitos pecuaristas reduziram o volume de animais confinados no primeiro giro. Os frigoríficos trabalham com escalas médias entre dois e três dias, o que restringe a oferta e sustenta a arroba. O mercado chegou a indicar valores próximos de R$ 325 por arroba no início de julho, mas já sinaliza preços em torno de R$ 340 no fim do mês.

Na avaliação do pesquisador, os fundamentos internacionais permanecem favoráveis ao Brasil. Os Estados Unidos enfrentam o menor rebanho bovino desde a década de 1960, enquanto Canadá e Austrália também registram redução da produção. Isso amplia as oportunidades para exportadores brasileiros. Além da China, mercados como Egito, Malásia, Filipinas e Indonésia vêm aumentando o interesse pela carne brasileira. Japão e Coreia do Sul seguem em negociação para abertura do mercado.

Outro ponto abordado foi o mercado europeu. Embora represente participação menor nas exportações, o bloco paga pelos cortes um valor superior. O tema ganhou relevância após a União Europeia confirmar a retirada do Brasil da lista de países autorizados a exportar carnes ao bloco, medida que entra em vigor em 3 de setembro. A decisão foi motivada pela avaliação de que o país não comprovou o cumprimento das exigências sobre o controle de antimicrobianos. O governo brasileiro contesta a decisão. Na avaliação do pesquisador, uma eventual restrição europeia afeta mais a rentabilidade do que o volume embarcado. Enquanto a China remunera a carne em torno de US$ 6,50 por quilo e países como Egito pagam entre US$ 4 e US$ 4,50, compradores europeus desembolsam entre US$ 8 e US$ 10 por quilo.

Para Thiago Bernardino, a competitividade da pecuária brasileira deixou de depender apenas dos ganhos de produtividade. Ele resume a atividade em quatro pilares: produção, pessoas, gestão financeira e comercialização. Na produção entram fatores como genética, manejo e nutrição. A gestão envolve controle de custos e estratégias de comercialização. O pesquisador ainda aponta a segurança jurídica como um desafio crescente. Na avaliação dele, Mato Grosso do Sul tornou-se um exemplo da transformação da pecuária nacional. A atividade vem aumentando a produtividade mesmo ocupando áreas menores, resultado da adoção de tecnologia e da necessidade de disputar espaço com outras culturas. "O Mato Grosso do Sul precisou subir a régua", resumiu.

Compartilhar: WhatsApp Facebook X
Veja também