Vila Sargento Amaral: memórias militares entre avenidas

Encravada entre três grandes avenidas – Ernesto Geisel, Fernando Corrêa da Costa e Fábio Zahran -, a Vila Sargento Amaral, de origem militar, em Campo Grande, tem uma geografia curiosa: as ruas curtas dão um ar de condomínio e a isolam do grande fluxo no entorno.
É numa dessas pequenas vias que estão as memórias do militar aposentado Miguel Ângelo Rivas Arguelho, de 70 anos. As lembranças dele se estendem por três gerações, chegando ao neto Miguelzinho, o menino de 11 meses, que ele mostra em fotografias no celular.
Na porta da casa, primeiro chega a cachorrinha Negrinha. Na vila, cada casa tem ao menos um morador de quatro patas, que late ruidosamente, quebrando o silêncio da manhã gelada de terça-feira (23), quando o vento trouxe sensação de frio abaixo dos 12°C do termômetro.
Miguel conta que mora no imóvel há 18 anos, desde que a esposa o herdou. Ele conhece a vila há muito mais tempo. Mostra a foto do primeiro filho, ainda criança, em frente à casa. O primogênito também faleceu lá, aos 46 anos. “Eu vim do Jockey Club para cá porque a esposa ganhou a casa. O bairro já foi mais tranquilo, quando a maior parte [dos moradores] era militar”, conta Miguel.
Na sala, Miguel exibe uma paixão: tem Corinthians para todos os lados. A logomarca do Timão se espalha por canecas, latinhas, xícaras e na pequena kombi, o brinquedo que alegra o netinho a cada visita. “Eu, o finado filho, a neta e Miguelzinho somos corintianos. Já comprei o uniformezinho dele”. Nascido em Concepción (Paraguai), Miguel se mudou ainda criança para Nioaque, onde ganhou cidadania brasileira para estudar.
A reclamação vai para os furtos e a violência de cidade grande. “Eu fui criado em cidade pequena, podíamos ficar sentado na varanda. Aqui tem que ter cuidado para colocar alguém dentro de casa. Antes de sair, tem que olhar tudo. Na hora de chegar, a mesma coisa”.
Na vila, as casas com câmeras, fachadas fechadas e receio de atender ao chamado da campainha mostram a preocupação com os dependentes químicos, que perambulam dos bairros vizinhos até lá. “Aqui é confortável, as pessoas são muito amigáveis. Mas já foi mais seguro, quando liberaram o pessoal ali da rodoviária, desceram tudo para cá. Esse pessoal em situação de rua. Tem ficado mais insegura e nós fizemos um grupo para poder um vizinho cuidar do outro”, afirma a comerciante Rosângela Padilha de Ávila Nogueira, de 55 anos, rodeada pelos cãozinhos Billy, Pérola e Chico.
Sobre os pontos positivos, ela afirma que o bairro é central, perto de um parque, de um supermercado e de vários comércios. A atendente Patrícia Espínola, de 50 anos, mora na casa que foi do avô. A varanda, com piso de ladrilho hidráulico, remonta a cinco décadas. “Minha família mora aqui há mais de 50 anos. Na época, quando meu avô comprou, só havia militares. Agora já mudou um pouco, com certeza está ficando mais perigoso. Eu tenho cachorro, então há segurança. Mas aqui é perto do Centro e perto de tudo”.
Nas calçadas, se espalham árvores frutíferas, como pé de mamão e de goiaba, além do colorido das flores. Dentro do perímetro do bairro, são duas padarias, chiparia, escritórios, consultório e serviços, como de costureira.