O Dia Internacional da Conscientização sobre o Autismo, celebrado em 2 de abril, não pode ser reduzido a campanhas simbólicas ou discursos protocolares, nem a estudos que buscam apenas impressionar. Para quem vive a escola e a universidade, e para quem pesquisa e atua com a temática, a data mostra uma urgência: é preciso transformar as práticas pedagógicas, as pesquisas e as publicações em ações voltadas às práticas sociais das pessoas autistas.
O autor do artigo, Geraldo Eustáquio Moreira, professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília, afirma que há um descompasso entre o que está garantido nas leis e o que se efetiva no chão da escola e nas universidades. A inclusão, muitas vezes, fica mais no plano do discurso do que na materialidade das práticas.
Persistem, em muitas salas de aula, práticas que operam como mecanismos de controle, classificação, exclusão e desconhecimento. No caso de estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), isso se agrava quando suas singularidades são desconsideradas e a não aprendizagem é atribuída ao diagnóstico, e não às condições de ensino oferecidas.
O feedback e o acompanhamento próximo das práticas, no chão da escola ou das famílias, são centrais no debate. Mais do que uma devolutiva, podem ser um ato pedagógico ético, formativo e inclusivo, capaz de orientar o estudante, fortalecer vínculos e reconfigurar o trabalho docente.
A inclusão efetiva não se improvisa. Exige planejamento pedagógico intencional, trabalho colaborativo e conhecimento aprofundado do estudante com TEA, construídos na relação, na escuta e na prática. A superficialidade de formações pontuais é insuficiente diante da complexidade do processo educativo de pessoas com necessidades educativas específicas (NEE).
No ensino de Matemática, isso se traduz em práticas que partem do concreto, das sensações e do cotidiano. Quando o ensino dialoga com a experiência, a aprendizagem acontece. O problema não está no estudante com NEE, mas nas condições pedagógicas ofertadas. A formação docente ainda é insuficiente para promover a inclusão como prática concreta nas salas de aula.
Falar de autismo na escola exige compromisso com práticas pedagógicas fundamentadas. É preciso reconhecer o estudante como sujeito de direitos, capaz de aprender. A inclusão se constrói ou se nega todos os dias na prática de quem ensina e aprende. O autor indica as produções do Grupo de Pesquisa Dzeta Investigações em Educação Matemática (DIEM) para aprofundar o debate na perspectiva dos Direitos Humanos.
Geraldo Eustáquio Moreira coordena projetos de pesquisa na área e foi vencedor do Grande Prêmio Anual de Educação em Direitos Humanos da UnB Mireya Suárez, edição 2023, na categoria Ensino Superior.
