Família acusa negligência após idosa morrer sem dentes em hospital

Familiares de Marli Andrade, de 66 anos, cobram respostas da Santa Casa de Campo Grande sobre o atendimento que a idosa recebeu antes de morrer, após quase dois meses de internações. A família questiona a demora para a amputação de um dedo do pé infeccionado e a retirada de dentes da paciente, que, segundo os parentes, ocorreu sem autorização ou aviso prévio. O caso é acompanhado pela Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul, que investiga uma possível negligência médica.
A Defensoria aguarda documentos solicitados à Santa Casa, incluindo a justificativa para a extração dos dentes e informações sobre o consentimento da família. Após analisar os papéis, o órgão decidirá quais medidas tomar. Eni Diniz, coordenadora do Núcleo de Saúde da defensoria, afirmou que o prazo para a resposta do hospital termina na próxima segunda-feira. “Se eles mandarem uma resposta, será verificada a pertinência terapêutica. Se não, vamos analisar que medida judicial pode ser tomada”, disse.
Segundo a filha, Marineide Andrade, de 45 anos, a mãe notou um ferimento no dedão do pé no fim de fevereiro. Seis dias depois, o dedo escureceu e começou a exalar mau cheiro, levando Marli a procurar atendimento em Paranaíba, onde morava. O ortopedista recomendou atendimento vascular urgente em Campo Grande ou Três Lagoas. Ela deu entrada na Santa Casa em 1º de março, mas a amputação do dedo só ocorreu dez dias depois, após cobranças da família.
Marineide relata que ligava para o hospital reclamando da demora. “Eu fiquei ligando, reclamando que não ia médico lá ver para dar uma decisão, se ia tirar o dedo logo porque podia dar uma infecção”, conta. Após a amputação e um cateterismo, Marli recebeu alta no dia seguinte, mesmo dizendo que continuava passando mal. A filha questionou uma enfermeira sobre novos exames, mas ouviu que não seriam feitos “porque senão vocês não vão embora”.
Poucos dias depois, Marli foi internada novamente com fraqueza intensa e a infecção havia avançado no pé, comprometendo rins e outros órgãos. Durante uma visita, Marineide viu a mãe entubada e com a boca sangrando, descobrindo que todos os dentes haviam sido extraídos. Ela afirma que não recebeu explicações sobre o procedimento.
A defensora Eni Diniz conheceu Marli em uma visita à Santa Casa em 12 de março. A paciente relatou ter ficado muito tempo sem atenção médica. A Defensoria solicitou o prontuário e, após a morte, pediu esclarecimentos sobre a extração dos dentes.
Depois da retirada dos dentes, Marli teve a perna amputada. O hospital informou que a infecção estava controlada e a transferiu para Paranaíba, onde ficou internada até 27 de abril. Recebeu alta no dia seguinte e morreu em casa em 29 de abril. A certidão de óbito aponta falência múltipla dos órgãos, longo período acamada e diabetes tipo II. A filha também afirma que a mãe desenvolveu feridas nas costas e no couro cabeludo durante a internação, tratadas apenas após a transferência.
A Santa Casa informou, em nota, que Marli tinha uma condição bucal comprometida e que a equipe médica manteve diálogo com a família, que, segundo o hospital, sabia da situação. A instituição afirmou que a diabetes agravava o quadro e que todas as condutas seguiram os protocolos médicos. A família, porém, diz que ainda busca respostas. “A diabetes era controlada. Você via ela toda alegre, cheia de planos. De uma hora para outra, tudo mudou”, lamenta Marineide.