Memórias de 26 mulheres revelam o Pantanal que ninguém contou

Muito antes de a energia elétrica chegar às fazendas do Pantanal, havia mulheres que acordavam antes do amanhecer para acender o fogão, preparar o café de dezenas de trabalhadores, buscar água, cuidar da casa e manter a rotina funcionando. Quase nunca apareciam nas fotografias. Muito menos nos livros.
Agora, as histórias de quem viveu esse cotidiano deixaram a memória oral para ocupar as páginas de "Olhares – Histórias de Mulheres Pantaneiras da Nhecolândia", livro de estreia da escritora e pecuarista sul-mato-grossense Gabriela Bacchi. A obra reúne relatos de 26 mulheres que vivem ou viveram em fazendas do Pantanal de Mato Grosso do Sul, preservando experiências que ajudaram a construir a identidade cultural do bioma.
Aos 62 anos, Leonice Clemente Vidal é uma dessas mulheres. Natural de Rio Verde de Mato Grosso, ela chegou ao Pantanal aos 20 anos e encontrou uma realidade bem diferente da que conhecia. Não havia energia elétrica, água encanada nem estrada que levasse até a porta de casa. Quando as cheias chegavam, o restante do caminho era feito de trator. Na seca, caminhadas longas em busca de água faziam parte da rotina.
"O começo foi difícil e o isolamento despertava saudades da minha família. Porém, com o passar dos anos, eu aprendi a gostar muito do Pantanal e das pessoas com quem convivi. Criei laços de amizade e aprendi muito com a sabedoria dos mais velhos", disse Leonice.
Hoje, depois de quase 40 anos trabalhando em fazendas pantaneiras, ela vê sua própria trajetória registrada em um livro. "Eu fiquei muito feliz pelo convite e por minha experiência ser lembrada a ponto de fazer parte de um livro. Nos últimos anos, percebi que está cada vez mais difícil encontrar pessoas interessadas em morar e trabalhar no Pantanal, por isso acho importante contar nossas histórias".
Outra personagem é Ana Paula Clemente Lemes, de 33 anos, nascida em Corumbá. O primeiro emprego dela foi como cozinheira em uma fazenda. Pouco tempo depois, já era responsável por preparar diariamente as refeições para cerca de 20 trabalhadores. "Meu tio foi muito importante no começo do meu ofício e me acordava de madrugada para preparar o desjejum dos homens que trabalhavam no campo".
Para ela, o trabalho feminino ainda é pouco compreendido por quem vê o Pantanal apenas de fora. "Por várias vezes me disseram que a atuação da mulher é mais leve no Pantanal, mas não é assim, não. A cozinha é a primeira a começar e a última a terminar. Os homens encerram as atividades no sábado à tarde, enquanto nós ficamos na lida de domingo a domingo." Ana Paula acredita que participar do livro representa um reconhecimento que vai além da homenagem.
Foi ouvindo histórias como essas que Gabriela Bacchi percebeu que existia um vazio na memória escrita do Pantanal. Durante cerca de cinco anos, a escritora observou o cotidiano das fazendas, entrevistou mulheres da região da Nhecolândia e transformou essas conversas no livro de estreia. Segundo ela, o maior desafio nunca foi escrever, mas garantir que cada relato permanecesse fiel à vida de quem o contou.
"Meu maior cuidado sempre foi preservar a essência de cada relato. Queria que essas mulheres se reconhecessem nas páginas do livro e percebessem que suas histórias mereciam ser contadas exatamente como aconteceram". Ao longo do processo, Gabriela percebeu que muitas entrevistadas sequer acreditavam que suas trajetórias pudessem interessar a alguém.
Além dos relatos, "Olhares" traz capítulos sobre o bioma pantaneiro, receitas tradicionais preparadas em fazendas e comitivas e um glossário com expressões típicas da região. Para a autora, preservar essas memórias é também reconhecer que a história do Pantanal foi construída por pessoas que quase nunca tiveram espaço para contar a própria versão. O lançamento está previsto para agosto.