Operação Lívia: rede criminosa induzia adolescentes ao suicídio

A morte de uma adolescente de 13 anos, registrada em julho em Naviraí, no sul de Mato Grosso do Sul, levou a Polícia Civil do Estado a descobrir uma organização criminosa com atuação nacional. O grupo é suspeito de recrutar crianças e adolescentes pela internet para submetê-los à violência psicológica, desafios extremos, automutilação e, em casos investigados, indução ao suicídio.
A descoberta deu origem à Operação Lívia, deflagrada nesta terça-feira (4) e coordenada nacionalmente pela DEPCA (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente), de Mato Grosso do Sul, em conjunto com o Ciberlab (Laboratório de Operações Cibernéticas), da Secretaria Nacional de Segurança Pública, vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Ao apresentar os resultados da operação, durante coletiva em Brasília, o secretário nacional de Direitos Digitais do MJSP, Victor Oliveira Fernandes, afirmou que a investigação revelou uma estrutura criminosa que utilizava diferentes plataformas digitais para promover desafios de violência extrema contra crianças e adolescentes. "Identificamos a articulação desses grupos de violência que funcionavam por meio de desafios de violência extrema voltados para crianças e adolescentes. Esse grupo atua simultaneamente no Telegram, fazendo comunicações e propagandas de eventos de automutilação e de induzimento ao suicídio de crianças e adolescentes, que são transmitidos em tempo real dentro da plataforma do Discord", afirmou.
Segundo o secretário, foi justamente uma dessas ações investigadas que culminou na morte da adolescente sul-mato-grossense. "Num desses casos, infelizmente, veio a culminar numa situação de suicídio por parte de uma vítima do Estado do Mato Grosso do Sul."
Investigação começou em Mato Grosso do Sul
Conforme a Polícia Civil, as investigações começaram logo após a morte da adolescente, em Naviraí. As primeiras diligências realizadas pela DEPCA, em atuação integrada com o Ciberlab, mostraram que o caso não se tratava de um episódio isolado. A análise das evidências digitais permitiu identificar uma organização criminosa estruturada, com atuação nacional, que utilizava plataformas digitais para localizar adolescentes em situação de vulnerabilidade emocional, estabelecer vínculos de confiança e exercer controle psicológico progressivo sobre as vítimas.
Durante a investigação, a DEPCA identificou outra vítima em outro estado brasileiro e reuniu elementos que indicam a possível existência de outras vítimas ainda não localizadas.
Como o grupo atuava
Segundo a investigação, os integrantes mantinham atuação permanente em diferentes plataformas digitais, onde recrutavam crianças e adolescentes para grupos fechados destinados à manipulação psicológica. Após conquistar a confiança das vítimas, os investigados passavam a impor um processo contínuo de coação, isolamento e violência psicológica. Entre as práticas identificadas estão desafios de violência crescente, automutilação, humilhações, exposição degradante e outras exigências utilizadas para ampliar o controle exercido sobre os adolescentes, chegando, em situações extremas, à indução ao suicídio.
Operação alcançou cinco estados
A partir da coordenação exercida pela DEPCA de Mato Grosso do Sul e pelo Ciberlab, foram cumpridas simultaneamente seis medidas de busca e apreensão contra adolescentes investigados e um mandado de prisão contra um adulto. As ordens judiciais foram executadas em Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Ceará e Pará. Para acompanhar pessoalmente parte das diligências, equipes da DEPCA foram deslocadas ao Rio de Janeiro e ao Ceará, enquanto as demais ações ficaram a cargo das polícias civis locais.
Celulares, computadores e outros equipamentos eletrônicos foram apreendidos e serão submetidos à perícia especializada. Segundo a Polícia Civil, o material poderá auxiliar na identificação de novas vítimas, na individualização da conduta dos investigados e na responsabilização de outros integrantes da organização.
Plataformas também serão investigadas
Durante a coletiva, o Ministério da Justiça informou que encaminhará à Autoridade Nacional de Proteção de Dados pedido para apurar a atuação das plataformas Discord e Telegram. Segundo a pasta, há indícios de que os ambientes digitais foram utilizados pela organização para recrutamento, comunicação entre integrantes e realização das práticas investigadas. As investigações prosseguem e novas medidas poderão ser adotadas conforme a análise do material apreendido.