As apostas eletrônicas, conhecidas como bets, foram o tema central da “XXVIII Semana de Políticas Públicas e Prevenção às Drogas”, realizada em Campo Grande. O evento discutiu a linha tênue entre “jogos, diversão e compulsão” e o avanço da jogatina nos lares brasileiros, motivada pelo desejo de lucro rápido.
A presidente do Cead/MS (Conselho Estadual de Políticas Públicas Sobre Drogas), psicóloga Denise Souza e Silva, afirmou que as apostas on-line já são tratadas como transtornos. “É uma dependência. O nível delas no organismo humano tem o mesmo impacto de uma dependência química”, disse. Ela destacou que pessoas na faixa de 20 a 30 anos criam a ilusão de que vão ganhar dinheiro rapidamente, perdendo o controle sobre o jogo. “O limiar entre diversão e compulsão é muito curto”, completou.
Denise também alertou para o endividamento dos brasileiros e o impacto na rede pública de saúde. Durante o evento, realizado na OAB/MS (Ordem dos Advogados do Brasil), foi lançada a cartilha “Bets e Saúde Mental – O que você pode fazer para se proteger de apostas online”. O material, elaborado por estudantes de dois cursos da Unigran, será levado às escolas, nos moldes do Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência).
A pró-reitora de Ensino e Extensão da Unigran Capital, Angelita Leal de Castro, explicou que os professores usarão a cartilha digital em sala de aula. “Os levantamentos consideraram o cenário Brasil, onde 75% da população que aposta está endividada, com muitas pessoas usando benefícios sociais nas apostas”, afirmou. Ela disse que não há estatísticas específicas de Mato Grosso do Sul.
O psiquiatra Vinicius Andrade, supervisor e doutorando do ambulatório de jogo da USP (Universidade de São Paulo), afirmou que o transtorno do jogo gera vergonha no paciente, que não tem uma substância para culpar. Segundo ele, o jogo estimula a busca pelo prazer de ganhar, e a ênfase acaba sendo maior nessa busca do que na realização do ganho em si.
Na última sexta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou um decreto que prevê o bloqueio imediato de recursos financeiros de bets ilegais. Após o congelamento pelos bancos e o fim do processo legal, o dinheiro será transferido para o Fundo Nacional de Segurança Pública, para ser usado no combate ao crime organizado.
