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Brazil life works but still hurts

O psicanalista René Dentz aborda um fenômeno comum na contemporaneidade: a vida aparentemente em ordem, mas que não desperta satisfação. Segundo ele, os compromissos são cumpridos, os boletos pagos e as relações mantidas em estabilidade, mas persiste uma sensação de vazio, como se faltasse algo essencial. O autor afirma que não se trata de ingratidão ou fraqueza, mas de um desencontro profundo entre o que a pessoa reconhece como sentido e o que consegue sentir.

Dentz classifica essa desconexão de si mesmo como um sintoma silencioso da época. Para ele, o problema não é o fracasso, mas o funcionamento vazio, quando nada está errado, mas também nada toca verdadeiramente. Ele critica a pressa em oferecer respostas e soluções rápidas, como métodos e vídeos que prometem reorganizar a vida, substituindo a escuta do que ainda não tem forma.

O autor defende que o mal-estar não deve ser eliminado rapidamente, pois pode conter mensagens importantes. Dores, repetições e silêncios podem ser sinais, e não defeitos. A psicanálise, segundo ele, propõe escutar aquilo que não cabe em respostas prontas, o que insiste e incomoda, sem a intenção de corrigir de imediato, mas de compreender o que está em jogo.

Em um mundo que valoriza a rapidez, a escuta torna-se quase subversiva, pois exige tempo, suspensão do julgamento e reconhecimento de que nem tudo em nós é transparente. Dentz sugere que muitas pessoas evitam esse encontro por medo do que pode aparecer quando o ruído diminui. No entanto, é nesse ponto que a transformação pode começar.

O objetivo não é tornar-se mais produtivo ou adaptado, mas aproximar-se de si, reconhecendo contradições, desejos e marcas pessoais. O sofrimento, para o psicanalista, está também na forma como ficamos presos ao passado, repetindo padrões inconscientes em escolhas e relações. A mudança acontece quando algo pode ser dito, ganhando forma e perdendo o poder de aprisionar.

Dentz conclui que não é preciso esperar o desmoronamento para buscar essa escuta. O maior risco, segundo ele, não é perder tudo, mas continuar como está e sentir, todos os dias, que falta algo.

René Dentz é psicanalista, pós-doutor pela Freiburg Universität (Suíça), professor de Filosofia da PUC-Minas, finalista do Jabuti Acadêmico 2025 e comentarista da Rádio Itatiaia. Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião do portal.