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Brazil paints streets with kids as World Cup fever hits Campo Grande

Por algumas horas deste domingo (24), a Rua Armando Holanda, no Bairro José Abrão, em Campo Grande, deixou de ser apenas passagem de carros para voltar a ser ponto de encontro, brincadeira, futebol na rua e vizinhos reunidos em volta da tinta fresca no asfalto.

Enquanto crianças pintavam estrelas amarelas no chão, adultos tiravam fotos, organizavam churrasco na calçada e lembravam das antigas Copas. A ação “Veste a Rua”, promovida pela Centauro em parceria com o Podpah Funkbol Clube, funcionou como um resgate afetivo de uma tradição brasileira que foi desaparecendo.

A intervenção homenageou o tetracampeonato da Seleção Brasileira, conquistado em 1994, e reuniu moradores de diferentes idades no entorno da Praça do José Abrão.

O produtor do Podpah Funkbol Clube, Enzo Titcarelli, contou que o projeto já passou por Manaus (AM), Santo André (SP) e Maringá (PR) antes de chegar a Campo Grande. “A primeira rua pintada por esse projeto foi em Manaus, depois São Paulo, no bairro Santo André, e passou em Maringá antes de vir para Campo Grande. A última cidade vai ser Recife”, disse.

Enzo observava crianças ajoelhadas no asfalto tentando preencher os desenhos e lembrou que a tradição atravessa a história da própria família. “Meu avô levava meu pai para pintar as ruas de São Paulo.”

Segundo ele, a preparação começou no sábado, quando o grafiteiro desenhou toda a arte no chão. “A primeira Copa que participei pintando rua já foi trabalhando”, brincou. “Hoje em dia, com a tecnologia, as crianças são acostumadas com celular e iPad, e a gente tirar elas de casa para vir pintar rua é uma coisa que a gente não está acostumado a ver.”

Ao longo da manhã, cerca de 50 pessoas passaram pelo local. Além da pintura, a organização promoveu campeonato relâmpago de futebol, distribuição de brindes e apresentações musicais.

Representante de marketing da Centauro, Diogo Uehara disse que o envolvimento do bairro surpreendeu a organização. “Aqui em Campo Grande foi uma festa. O pessoal do bairro e toda a vizinhança se uniu. Tivemos jogo de futebol, show com DJ.”

Segundo ele, a cena mais marcante foi ver diferentes gerações dividindo o mesmo espaço. “Tinha até uma placa escrita ‘pessoas trabalhando em busca do hexa’. A gente vê crianças de 3, 4 anos e senhor de idade de 70 anos, pessoas que viram as conquistas do Brasil.”

Diogo também relembrou as pinturas feitas na rua onde morava, em São Paulo, quando era criança. “A tradição foi se perdendo. É muito legal trazer essa memória de criança agora trabalhando.”

Responsável pelo desenho no asfalto, o grafiteiro Muriel Curunex, de 38 anos, disse que enxergou no projeto uma oportunidade de aproximar duas culturas populares. “O José Abrão faz parte da cultura hip-hop. Achei da hora juntar o grafite, a arte de rua, com o futebol.”

Trabalhando com grafite há 18 anos, Muriel contou que nunca tinha pintado asfalto antes. “Me senti privilegiado de ser escolhido para essa ação. Foi louco ver a empolgação da criançada, dos pais também.”

Para Muriel, o grafite e o futebol compartilham a capacidade de criar pertencimento coletivo. “O grafite começa de dentro para fora. Começa no quarto, depois vai para casa e depois para a comunidade.”

A educadora Aline Chimes, de 49 anos, acabou ficando no evento por acaso. Ela passava pelo bairro com a filha de 9 anos quando decidiu parar. “Eu achei muito interessante trazer esse show aqui para o nosso bairro. Eu e minha família nem sabíamos, estávamos passando e já ficamos.”

Ela lembrou que fazia muitos anos que não via algo parecido em Campo Grande. “Já participei de ação como essa, mas em outro bairro, faz tempo, quando a tocha olímpica veio para a cidade.”

A pedagoga Luciene Caiçara dizia enxergar na cena algo maior do que futebol. “Isso é muito importante. A gente resgata uma cultura que já era do bairro. Antigamente, a gente fazia cada um na sua rua.”

Para ela, o principal valor da ação está em criar experiências que muitas crianças de hoje já não vivem mais. “É um resgate das épocas da nossa geração, que as crianças de hoje em dia não têm essa vivência. Hoje elas tiveram essa oportunidade de vivenciar isso, pintar as ruas e torcer.”

Luciene concluiu que o sentimento coletivo visto no José Abrão não cabe apenas dentro do esporte. “Não é só futebol. Eu vejo como cultura, socialização e alegria. Algo que vai além do futebol.”