Pesquisas revelam manejos que ampliam carbono no solo de MS

Pesquisas desenvolvidas em diferentes regiões de Mato Grosso do Sul mostram que a forma como o solo é manejado influencia diretamente sua capacidade de armazenar carbono. Estudos conduzidos pela UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) apontam que práticas como a recuperação de pastagens degradadas, a integração lavoura-pecuária e o plantio direto podem aumentar os estoques de carbono quando comparadas a sistemas convencionais de produção.
Os resultados integram uma série de pesquisas coordenadas pelo professor Jean Sérgio Rosset, do GECARB (Grupo de Estudos em Carbono) da UEMS, que investiga como diferentes sistemas produtivos interferem na dinâmica do carbono armazenado no solo. Segundo o pesquisador, além de contribuir para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, esses manejos melhoram a qualidade do solo e tornam a produção agropecuária mais sustentável.
As pesquisas também medem quanto cada sistema produtivo consegue armazenar nas condições de solo e clima de Mato Grosso do Sul, gerando informações que podem orientar produtores, subsidiar políticas públicas e aprimorar as estimativas sobre o potencial de sequestro de carbono no Estado.
Condições desfavoráveis
Em Aquidauana, a equipe de pesquisadores comparou diferentes formas de uso da terra e observou diferenças expressivas na capacidade de sequestrar carbono. O plantio direto apresentou incremento médio de 0,34 tonelada de carbono por hectare ao ano, enquanto pastagens bem manejadas alcançaram 0,58 tonelada por hectare ao ano. Já áreas cultivadas com cana-de-açúcar registraram ganho de apenas 0,04 tonelada por hectare ao ano. Esses ganhos equivalem ao sequestro de aproximadamente 0,15 a 2,2 toneladas de CO₂ (gás carbônico) por hectare ao ano nos primeiros 20 centímetros do solo.
Rosset considera esse um dos resultados mais relevantes das pesquisas por ter sido obtido em uma região onde o acúmulo de carbono tende a ser mais difícil. Segundo ele, Aquidauana apresenta temperaturas elevadas e, em parte do território, solos mais arenosos, fatores que, associados à umidade no período chuvoso, favorecem a decomposição do carbono pelos organismos do solo.
Integração lavoura-pecuária
Outro estudo, realizado em Naviraí, avaliou um sistema de integração lavoura-pecuária. Após seis anos de acompanhamento, os pesquisadores verificaram aumento de 46% nos estoques de carbono em relação ao sistema anterior. De acordo com o pesquisador, o resultado demonstra que práticas capazes de manter maior produção de biomassa e cobertura permanente favorecem o armazenamento de carbono ao longo do tempo.
Já em Mundo Novo, pesquisas em áreas de pastagens degradadas mostraram que a recuperação dessas áreas possibilitou o acúmulo médio de 0,51 tonelada de carbono por hectare ao ano, equivalente ao sequestro de 1,87 tonelada de CO₂ por hectare ao ano nos primeiros 20 centímetros do solo. Para o pesquisador, o resultado reforça o potencial da recuperação de áreas degradadas para conciliar benefícios ambientais e aumento da produtividade agrícola.
Acúmulo de carbono
Rosset explica que o carbono chega ao solo principalmente por meio da vegetação. Folhas, raízes e resíduos vegetais são incorporados ao sistema e transformados pela atividade dos microrganismos. Quando o manejo favorece esse processo, parte desse carbono permanece armazenada por períodos prolongados. Em contrapartida, práticas como o revolvimento intenso do solo, a erosão e a degradação aceleram sua perda para a atmosfera.
Questionado sobre qual medida teria maior impacto caso um produtor rural pudesse adotar apenas uma mudança para aumentar o carbono no solo, o pesquisador afirma que a prioridade é evitar o revolvimento do solo. Em seguida, ele destaca a manutenção da palhada sobre a superfície e a diversificação de culturas na mesma área como as práticas mais eficientes para favorecer o acúmulo de carbono.
Segundo Rosset, sistemas que mantêm o solo permanentemente coberto produzem maior quantidade de biomassa, reduzem o revolvimento e tendem a apresentar melhores resultados. Entre as práticas destacadas estão o plantio direto, a rotação de culturas, o uso de plantas de cobertura, o pastejo manejado e os sistemas de integração lavoura-pecuária e lavoura-pecuária-floresta.
Resultados variam
O pesquisador ressalta, entretanto, que os resultados obtidos em Aquidauana, Naviraí e Mundo Novo podem servir como referência para outras regiões do Estado, mas precisam ser confirmados por medições realizadas em cada local, já que as características do solo e do clima influenciam o comportamento do carbono.
Além do benefício ambiental, Rosset destaca que o aumento do carbono no solo também favorece a produção agropecuária. Solos com maior teor de matéria orgânica apresentam melhor estrutura física, maior infiltração e retenção de água, maior atividade biológica e melhor aproveitamento dos nutrientes, tornando os sistemas produtivos mais resilientes às variações climáticas.
Para o pesquisador, a principal lição dos estudos é que o solo está em permanente transformação. "O solo nunca é neutro, ele está sempre ganhando ou perdendo carbono, e quem decide a direção é o manejo", resume. Segundo ele, esse comportamento foi observado nos três municípios estudados, embora a velocidade de acúmulo varie conforme o clima e o tipo de solo. Em áreas mais arenosas, por exemplo, o carbono entra rapidamente, mas também é perdido com maior facilidade.