Proximidade com vítima facilita crime e atrapalha investigação

Em Mato Grosso do Sul, dois casos recentes de homicídio chamaram a atenção por um detalhe em comum: o principal suspeito era alguém que convivia com a vítima e chegou a acompanhar as investigações de perto.
No Assentamento Conquista, entre Campo Grande e Rochedo, o desaparecimento do caseiro Antônio Ormondes Pereira mobilizou moradores da região. Durante as buscas, um vizinho permaneceu ao lado das equipes policiais, conversou com investigadores e ajudou na movimentação da propriedade. Horas depois, ele foi preso ao confessar participação na ocultação do corpo.
Em Naviraí, a morte de Maria do Carmo de Souza, de 66 anos, seguiu roteiro parecido. O vizinho Pedro Lopes Menezes acionou familiares, disse ter encontrado a vítima e prestou depoimento como testemunha. Imagens de câmeras de segurança, no entanto, mostraram que ele entrou na casa com um facão e saiu com a arma coberta de sangue. A Polícia Civil confirmou que os dois tiveram um relacionamento de cerca de dois meses.
O delegado da DHPP (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Homicídios e de Proteção à Pessoa), Carlos Delano, afirmou que o trabalho policial considera todas as hipóteses até que as provas indiquem o caminho correto. "Quando uma investigação de homicídio começa, o princípio é que todo ser humano é um homicida em potencial", disse.
Segundo Delano, quando existe vínculo entre autor e vítima, é comum que o suspeito permaneça próximo da investigação. "Quase sempre os infratores se mostraram dispostos a ajudar, fazendo buscas ou registrando boletim de desaparecimento. Não raro publicam conteúdo nos perfis das vítimas para criar a impressão de que elas ainda estão vivas", detalhou.
A polícia alerta que participar ativamente das buscas não transforma automaticamente alguém em suspeito. A avaliação é baseada em um conjunto de evidências materiais e testemunhais, e não em atitudes isoladas.
Padrão registrado em 2020
Em 2020, no assassinato de Carla Santana Magalhães, de 25 anos, em Campo Grande, o autor era vizinho de muro da vítima. Ele também demonstrou solidariedade após o crime. O caso foi enquadrado como feminicídio por menosprezo à condição de mulher.
Para o delegado, esses casos reforçam que qualquer pessoa pode ser um homicida em potencial. "Devemos estar alertas e prontos para estabelecer limites quando a convivência deixar de ser saudável", finalizou.